quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Elas contam suas vidas de lesbianas no Marrocos

Riham, Amira e Jacky são marroquinas e lesbianas, e isso pode lhes custar caro. Até três anos de prisão, sem contar a exclusão familiar e os ataques físicos e verbais. Como viver seu amor em um tal clima? Uma só opção: a discrição. «Eu sempre senti que eu era atraída pelas garotas, conta Riham*, crepitante adolescente marroquina. Com a idade de 12 anos, eu encontrei uma amiga que era lesbiana e que ficou apaixonada por mim. Eu quis experimentar essa relação e eu me dei conta que meus sentimentos por ela eram reais… Foi minha primeira experiência.»

Uma experiência ilegal. No Reino cherifence, a homossexualidade é passível de três anos de prisão e a sociedade percebe com maus olhos as relações gays e lesbianas - as julgando proscritas pelo islã, a religião do Estado.

Difícil de se encontrar

Em consequência, as mulheres, como os homens, penam em encontrar uma metade. E isso mesmo se «nessa sociedade que não autoriza o contato entre pessoas de gênero diferente, é mais fácil de encontrar uma intimidade com uma pessoa de seu sexo», revela Jacky*, uma das administradoras do grupo lésbico Menna w Fena («De nós e em nós», em árabe).

Um paradoxo que pode se revelar frustrante. Muito frustrante. «Muitas lesbianas gostam de ir ao hammam só para ver as mulheres nuas. Pessoalmente, eu não gosto de fazer isso e eu não penso que o hammam seja um lugar para encontrar ou conhecer as lesbianas», explica Amira*, 19 anos.

Lesbianas invisíveis

Onde dragar? Falta de lugar dedicado, a gente se encontra nos cafés, nos night clubs… repletos de heteros. Nada simples. Resultado, «a maior parte das garotas encontram suas companheiras no Facebook ou em outros sites. Há também a rede, como as amigas que temos em comum», conta Riham, que mantém uma relação de longa distância na Web com uma Egípcia.

Quanto à sexualidade, o Dr Mohamed Maidine, sexólogo em Casablanca, estima que as mithliya («lesbianas», em árabe) são melhor dotadas que os gays. «Uma garota pode se ir a casa de uma companheira sem que haja desconfiança sobre as relações sexuais», resume ele. Talvez por que essas relações são totalmente ocultas.

«O imaginário popular no Marrocos não visa que as mulheres possam ter uma sexualidade fora do homem.» Uma socióloga

Sequestros ou matrimônios forçados

«Muito frequentemente, quando falamos da homossexualidade, pensamos mais nos homens que nas mulheres, observa a socióloga Sanaa El Aji. Essas últimas sendo consideradas como objeto sexual desejado, o imaginário populário não visa que elas possam ter uma sexualidade fora do homem, que elas possam ter vontade e desejo também…»

Nesse contexto de repressão e de invisibilidade, algumas recusam sua sexualidade – como resultado graves problemas psíquicos. Riham e Amira escolheram conciliar, bem ou mal, sua religião e suas sexualidade. Mas sem sair do armário ou confirmar as dúvidas dos seus. Pois, além da prisão e a exclusão familiar, aquelas que quebram a ordem estabelecida ou são denunciadas arriscam a discriminação, as troças, os ataques físicos ou verbais. Além da violência: «Os próximos podem encerrar a filha em casa ou considerar que sua sexualidade é um pecado e a obrigar a se casar para resolver o problema», conta Jacky, 23 anos.

Comunidade em linha

Uma situação que a militante talvez resvalou. Em casal após quatro anos, ela havia um dia confiado a natureza de seu amor a um próximo «por que ele não era justamente marroquino, árabe ou muçulmano, mas europeu». Erro. Seu confidente se apressou e advertir toda sua família. Reações: enquanto que sua avó e suas tias pleitearam o direito à vida privada, seu tio a vilipendiou a golpes de versículos do Corão…

Menna w Fena, emanação do grupe LGBT Kifkif, precisamente de formou para fazer compreender que a homossexualidade «não é uma deficiência sexual das mulheres». Seu site propõe diversas informações, um espaço de discussão e uma assistência telefônica na terça-feira a noite – inacessível cada vez que TÊTUE discou o número.

Partir ou lutar

A termo, Menna w Fena espera sobretudo obter direitos para as mithliya. Pessimista, Jacky pensa que «isso tomará diversas décadas» antes que elas realmente se dêem conta. Ela visa então deixar seu país, fatigada de compor com sua família e a de sua parceira, que tentam separá-las sem estar explicitamente a par de suas relações.

Quanto a Riham, ela se sente mais serena. É preciso dizer que seu segredo pesa bem menos pesado depois que seus amigos a apoiam. «No início, eles ensaiavam de me dizer que o que eu sentia não era verdadeiro, que isso não era uma boa estrada, que é une crise da adolescência. Hoje, eles aceitam minha sexualidade e me perguntam mesmo como isso se passa com minhas companheiras!»

*O prénome foi mudado

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