sexta-feira, 22 de outubro de 2010

BULLYING, HOMOFOBIA E FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO

Apesar de o fenômeno Bullying ter maior centralidade de observações, pesquisadas e intervenções no universo escolar, ganha extensão social através das diferentes formas de discriminação e preconceito. Diante desta complexa realidade, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lança a “Bullying: Cartilha 2010 – Projeto nas Escolas”, destinada à orientação de educadores, no enfrentamento do problema.
Apesar de não abordarem um aspecto fundamental como pauta, é possível traçar um paralelo do tema com o fundamentalismo religioso, a partir do momento que os altos níveis de violência e exclusão para com os mais desfavorecidos, geralmente em situações de desigualdades de poder (assédio), auxiliam no desenvolvimento de quadros esquizofrênicos, homicidas e/ou suicidas. São considerados quadros extremos, que mesmo diante de sinais e sintomas, tanto individuais, quanto coletivos, não se orientou intervenções nem mesmo para prevení-los, entre outras medidas que podem ser consideradas na segunda edição do material.
O texto da cartilha aponta que os projetos e intervenções mais relevantes no enfrentamento do fenômeno, ocorrem nas escolas públicas. Provavelmente, acredito que por não se relacionar diretamente com consumo costumeiro da educação, enquanto mercadoria, mas, como lugar de cumprimento de uma das obrigações do Estado. Assim, busca em essência a prestação do ensino com qualidade e de forma mais idealizada. O que não significa afirmar que não existem problemas desta ordem na rede pública, principalmente, ao considerarmos os relatórios de pesquisas realizadas e socializadas pela AGLT, A Reprolatina e Ecos (2010), acerca da homofobia escolar, uma das múltimas formas de expressão do bullying.
A CNJ orienta para que pais e educadores observem os sinais e sintomas decorrentes da vitimização sofrida pelos seus filhos em decorrência dos desdobramentos do fenômeno da exclusão sócio-educacional, assim como comportamentos típicos de agressores, decorrentes de uma sociedade que vive grandes mudanças e inversão de valores. Momento em que os limites e parâmetros se estabelecem de forma confusa em meio à sociedade. Assim como se deve buscar conselho e auxílio profissional para sanar dificuldades advindas de traumas mentais e incentivar o exercício de talentos e habilidades inatas, com o objetivo de promoção do bem-estar e regulação da auto-estima, construindo sua identidade social de forma funcional e plena, no exercício de direitos e deveres.
Entre os aspectos positivos, retoma o lugar e papel de responsabilidade das famílias, no sentido de salientar que no meio familiar ensina-se, permite-se ou enfrenta-se o comportamento de membros agressivos que efetuam a exclusão, os chamados bullies (agressores). A suposta ‘falsa crença’ de que o aluno agredido não receberá apoio do corpo administrativo-docente escolar, infelizmente, como em muitos casos foram noticiados, não receberá apoio, diferente do que a cartilha aponta. Tal afirmativa pode ser pensada na base da omissão de muitos profissionais da educação que não denunciam o crime às autoridades competentes, como deveriam, para não se comprometer ou por meio da crença dos valores pessoais do educador, que acabam por inverter os valores do que vem a ser justiça, colaboração e solidariedade. Infelizmente, alguns acreditam que a justiça se dá na humilhação ou vitimização dos estudantes, nas suas diversas formas, seja verbal, física-material, psico-moral, sexual, e a mais nova e violenta forma, a virtual (internet). Além de se mostrarem solidários e colaboradores aos próprios agressores e seus comportamentos violentos, formando e fomentando, direta e indiretamente, ‘pseudo-justiceiros sociais’.
Para finalizar este breve artigo, outra crítica à produção da cartilha é importante. Apesar do texto da cartilha está bem elaborado, sucinto, informativo e explicativo, é um equívoco não citar e nem descreve as formas mais comuns de exclusão escolar, que levam a evasão estudantil e desencadeiam sérias barreiras educacionais. Não falar sobre as formas de preconceito e discriminação que acontecem na escola é uma forma de mascarar o fenômeno, já que o texto sugere diálogo aberto como solução da problemática. O racismo, o xenofobismo, machismo, sexísmo, fundamentalismo religioso, descriminação sócio-econômica e, principalmente, a homofobia (LGBTfobia) devem ser abordados de forma aberta e ampla, para que possam ser enfrentados.
Na sociedade atual, entre as formas de expressão e violência marcada pela ideologia no fenômeno bullying, a homofobia é a que apresenta maior dificuldade em seu enfrentamento, devido moral-conservadora fundamentalista que, por exemplo, invertem a lógica dos valores, e defendem a crença de que castrar os direitos de LGBT é mais significativo, chegando ao cúmulo de acreditar ser processo didático-educacional. Nesta mesma vertente, premiam e reforçam jovens agressores, que aprendem desde cedo que não há punição ou conseqüências para suas ações criminosas. Portanto, denunciem os agressores aos órgãos competentes junto com entidades de direitos humanos para que acompanhem o caso, pois o índice de suicídios entre adolescentes e jovens LGBT tem crescido, de acordo com a estatística de entidades nacionais e internacionais.

Por: Patrick Thiago Bomfim, Professor, Psicólogo, Mestre em Psicologia e ativista-militante pelos direitos humanos, religiosidade e espiritualidade de homossexuais (LGBT).


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Clique aqui e baixe gratuitamente a cartilha lançada pelo CNJ nesta semana:

1 explanações:

  1. Tenho uma dúvida: Bullying ou Homofobia? alguém me disse que não é interessante tratar o bullying contra homossexuais como bullying, porque seria como tratar racismo como bullying.
    Gostaria muito de ver algumas opiniões..

    Grande abraço, parabéns pelo blog.

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